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Opinião 21: A Segunda Vinda de Cristo à Terra (João Cerqueira)

Título A Segunda Vinda de Cristo à Terra  Autor João Cerqueira  Edição Estação Imaginária  Género Humor | Ano 2015 Páginas 196...

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Título A Segunda Vinda de Cristo à Terra 
Autor João Cerqueira 
Edição Estação Imaginária 
Género Humor | Ano 2015
Páginas 196 | PVP 16,96 € 
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Talvez não tenha ainda ouvido falar de um género literário a que os americanos chamam bizarro fiction. Misturando sátira com as mais absurdas premissas, este género tem como principais referências autores como Carlton Mellick III, D. Harlan Wilson ou Cameron Pierce, e ainda a Eraserhead Press, uma espécie de editora-mãe do estilo. Entre os muitos títulos do género encontram-se obras tão originais como Adolf in Wonderland, The Haunted Vagina, Ass Goblins of Auschwitz, The Baby Jesus Butt Plug e Rico Slade Will Fucking Kill You. A única regra do género é ser criativo ao ponto de nunca aborrecer o leitor.

Em Portugal não temos bizarro fiction. Mas temos João Cerqueira.

O princípio por trás de A Segunda Vinda de Cristo à Terra, distinguido este ano com a Medalha de Prata no International Latino Book Award, parece ser o mesmo que o da bizarro fiction: captar a atenção do leitor com uma premissa aparentemente estranha e deslumbrá-lo depois com uma mescla de sátira e humor. A narrativa abre, por isso, com o regresso de Jesus Cristo à Terra, mais concretamente a São Martinho da Horta, facto que não é explicado nem aprofundado nas páginas que se seguem. E nem precisava de ser. Jesus está vivo nos tempos modernos, já na sua fase adulta, e é só o que precisamos de saber.

O livro está dividido em três partes que funcionam como novelas individuais. Na primeira, Jesus conhece Madalena – que nesta realidade não é prostituta – e um grupo de activistas radicais que partilham nomes com os seus antigos apóstolos. Autodenominado Verdes São os Campos, o grupo tem como missão acabar com o milho geneticamente modificado nas plantações, mesmo que para isso tenha de recorrer a meios mais extremos ou violentos, estilo que naturalmente não encaixa com o pacifismo de Jesus.

O mais curioso é que se o retornado Jesus demonstra alguma dificuldade em compreender os tempos modernos, estes activistas da cidade também não parecem entender os modos rudes das gentes do campo. 

Madalena preparava-se para dar um par de bofetadas no rapaz mais próximo quando Jesus lhe pôs a mão no ombro.
— Não faças isso.
O braço dela não chegou a erguer-se e os músculos distenderam-se. Nesse momento os adolescentes deram-se conta da sua presença e desataram a fugir pela encosta abaixo. E riam-se novamente, tão divertidos agora como antes de serem apanhados. O mais velho, achando-se já a uma distância segura, virou-se de repente e fez-lhes um gesto obsceno com o dedo médio.
— Pó caralho.

Bastante distintos na maneira de ser e pensar, Jesus e Madalena estabelecem ainda assim uma ligação próxima, que permanece ao longo de toda a narrativa. Uma das cenas mais bem conseguidas desta primeira parte da história é, contudo, o encontro de Jesus com Justino, um padre local que rapidamente o desvaloriza como um mero hippie

Madalena ficou à porta e Jesus entrou. Justino já o esperava e não perdeu tempo com as palavras de cerimónia ou considerações sobre a meteorologia.
— Constatei que o jovem não sabe patavina de religião. Vou começar por lhe ensinar quem foi Jesus, sente-se e ouça: Jesus Cristo é o filho de Deus, nascido por obra do Espírito Santo e de sua mãe a Virgem Maria..., e não se ponha já a perguntar como foi isso possível porque ainda não está preparado para compreender os mistérios divinos. Vocês pensam que chegam à Internet e encontram todas as respostas, mas para entender a religião é preciso estudo e fé. Por isso cale-se e escute... onde é que eu ia?

Na segunda parte da história, talvez a mais divertida das três, Jesus e Madalena tornam-se meros figurantes. O enredo assume como foco as muitas aventuras de uma difícil negociação, tendo em vista a construção de um moderno empreendimento turístico em Vilar de Mochos. A tentativa de mostrar o melhor da vila ao possível investidor passa por um violento jogo de futebol, uma refeição bem regada e, claro está, uma casa local de meninas. 

Joaquim Almeida tirou os sapatos, serviu os amigos e bebeu pelo gargalo. Depois convidou-os a escolher algumas das meninas que estavam encostadas ao balcão ou passarinhavam de um lado para o outro.
— É material de boa qualidade. E já as corri a todas para ganharem amor à casa.
No entanto, vendo-os indecisos, precisou as suas preferências.
— Eu cá gosto delas cheiinhas, mas no fundo isto é um bicho que se aperta e chia.

Na terceira parte da história, Jesus e Madalena afastam-se do campo e chegam ao Bairro da Europa, onde os negros e os ciganos abriram guerra, a violência impera e ninguém parece capaz de se entender. 

— Essa porta já estava estragada...
— Esse carro nem para a sucata servia...
— Foram os ciganos quem roubaram essa bicicleta...
— Foram os negros quem roubaram esse telemóvel...
— Devem ter sido os brancos que assaltaram essa loja...
— Devem ter sido os brancos que pegaram fogo a essa mota...
— O meu primo ficou a coxear...
— O meu cunhado anda, há que tempos, na fisioterapia...
— A minha sogra está gaga.
— Também você nunca gostou dela.

Jesus e Madalena decidem promover a paz entre os dois grupos, procurando para o efeito a ajuda de um bruxo, o Professor Kacimba. Em simultâneo, num subenredo inspirado em Romeu e Julieta, a cigana Romi e o negro Julião apaixonam-se à revelia das famílias. 

Foi num desses concertos de hip-hop durante as férias do Verão que Julião, enquanto ouvia o rapper Kid Tuga, cujo refrão troava "polícia mata a gente ioo, polícia mata a gente ioo", descobriu no meio do magote dançante Romi. A cigana Romi, menina de dezasseis anos e neta mais velha de Honório.

O ponto forte da narrativa de João Cerqueira é a inteligência com que este mistura humor, filosofia, política e crítica social na sua escrita. É certo que algumas passagens soam demasiado trabalhadas, resultando numa leitura menos fluida do que seria desejável. Também alguns personagens, desde logo o protagonista Jesus, poderiam ter sido melhor explorados. Mas, no fim, o que permanece é uma criatividade despudorada que raramente se encontra na literatura nacional. E uma vontade de correr riscos e exagerar que até podia ter sido elevada para dar aos fãs do género um pouco de bizarro made in Portugal.

Por cá, temos o infeliz hábito de desvalorizar a literatura de género, razão pela qual ainda não se vê o nome de João Cerqueira nos tops de vendas das livrarias nacionais. Por alguma razão se diz que somos um país de poetas. Entretanto, no estrangeiro já repararam no autor português: depois de o romance A Tragédia de Fidel Castro ter sido distinguido com o Prémio USA Best Book em 2013 e de o conto "A House in Europe" ter recebido uma menção honrosa por parte da publicação americana Glimmer Train, A Segunda Vinda de Cristo à Terra será publicado em Espanha em 2016. Trata-se, portanto, de um nome a reter.

Texto: Tiago Matos

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Opinião 21: A Segunda Vinda de Cristo à Terra (João Cerqueira)
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